sexta-feira, 2 de julho de 2010

Reuniões

Na passada quarta estive numa reunião preparatória da Conferência de Cabul. Cinquenta pessoas sentadas a uma mesa para discutir posições políticas, com a respectiva tabuleta do país que representam à sua frente. Não teria sido nada de especial se não tivesse havido este momento surpreendente em que após a nossa tomada de posição sobre alguns assuntos, a posição da União Europeia, não tivesse havido este alinhamento de todos os embaixadores dos 27 Estados-membros perante a nossa posição. Algo novo em Cabul e que reflecte que algo está a mudar na representação política da UE no estrangeiro. Algo que nos fez sorrir e pensar que finalmente a Europa começa a funcionar.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Cabul... um ano depois

Dentro de alguns dias terei efectuado o meu primeiro ano em Cabul. Não sinto que algo tenha realmente evoluído pela positiva nesta cidade nos últimos doze meses. A insegurança parece ser a mesma, ou pior. Claro que grande parte da minha percepção de insegurança relaciona-se com o aumento de restrições a que estou sujeito. Restrições de movimentos, restrições nos comportamentos diários, restrições de acessos... Os afegãos parecem na generalidade apreensivos com o futuro, o seu exercito parece mal preparado para assegurar a continuação após a saída progressiva das forças militares estrangeiras daqui a um ano. A identificação de cada vez maiores riquezas no subsolo afegão não irá ajudar a intromissão de estrangeiros nos negócios nacionais nem reduzir o elevado grau de corrupção.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A ficar cansado de cabul

Começo a estar um pouco cansado de Cabul, confesso. Ontem houve mais um grande ataque e mais de vinte mortos. Hoje de manhã tentaram atacar uma base norte-americana. Comecei a ganhar uma claustrofobia aos carros blindados e a espaços fechados... preciso de respirar. Esta foto foi tirada há pouco tempo com o candidato à presidência nas últimas eleições afegãs. E já lá vão 10 meses de Afeganistão.

domingo, 2 de maio de 2010

Lei seca

Após a dificuldade em se encontrar alcool na cidade, chegou-se ao ponto de não se encontrar de todo. Rusgas da polícia fecharam vários bares e neste momento não se encontra alcool em nenhum bar ou restaurante da cidade. Parece que algumas pessoas foram detidas. Algumas ONG também estão a ser alvo de buscas... Chegou a lei seca

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Nove meses...

Bem… estive ausente algum tempo, no Botsuana, Portugal, Bélgica e uns chuvosos Países Baixos. Voltei a Cabul ontem e percebi que já cá estou a nove meses. Hoje, assumi novas funções na embaixada. Dedico-me agora à Economia, comercio, finanças públicas e estatísticas. Tive o meu baptismo na área com uma reunião com o Banco Mundial e uma vídeo-conferência com Washington. Quanto ao País as coisas não estão melhores. Os aliados continuam a combater no Sul sem, no meu ponto de vista, grande resultado aparente. Karzai depois de regressar da China e do Irão começou a atacar as forças estrangeiras no pais e foi “calado” pela Nato, por quanto tempo não sei. Penso que as coisas estão piores do que estavam há nove meses. As regras aos nossos movimentos foram apertadas e estamos cada vez mais isolados da realidade. Existe muita tensão no ar e os Talibãs estão muito calados.

"U.S. officials are expressing puzzlement and dismay over the latest remarks by Afghan President Hamid Karzai, including his reported threat to join the Taliban if foreigners don't stop meddling in Afghanistan."
from USA Today

domingo, 17 de janeiro de 2010

Viagens parte ?? + 1 : Deli, Bruxelas, Lisboa, Roma, Muscate e Dubai

De regresso a Cabul, o balão de controlo das forças militares presentes na cidade continua a vigiá-la, os talibãs provocaram mais uma explosão no centro da cidade há dois dias, armas e burcas misturam-se nos passeios. Tudo normal, ou quase, pois parece ter chegado à cidade um inverno bastante ameno, com temperaturas a lembrar a primavera e com receios de falta de água no verão....


Depois da morna Deli, da gelada Bruxelas, das chuvosas Lisboa e Roma, de papeladas a serem tratadas, de dentistas e de uma agenda social bem carregada na Europa, fugi para o sultanato de Omã, espreguei-me na praia, coloquei a leitura em dia e aproveitei o sol de um país bem bonito, de uma cidade limpa e de pessoas acolhedoras e simpáticas, simpáticas em qualquer parte do país. Um país em franco desenvolvimento e prosperidade, com excelentes condições de vida e uma abertura progressiva desde os anos setenta ao exterior. Encontrei a presença dos antepassados lusos em Muscate ou Mascate (actual capital) e Nizwa (antiga capital), obsevei um canhão português à entrada do Forte circular da antiga capital de Omã e muitas outras referências ao nosso país que dominou o sultanato nos sec. XVI e XVII.
De regresso a Cabul ainda passei por Dubai, uma cidade que certamente não foi feita para peões... o novo metro ajuda na mobilidade, fiz as pazes com a praia da cidade e fui rever a estranha pista de esqui do emirates mall, que tem de ser vista para se crer que possa existir, Tempo ainda para as palmas e o complexo de atlantis... com um "Ocenário" ao "estilo " Dubai...

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

viagens parte ...? Istambul


Sim, sei que já voltei de Istambul há mais de uma semana mas ainda não tinha tido tempo para escrever sobre o assunto. Istambul é magnífica! Alguém disse que seria a capital da Europa um dia, já não sei quem foi, pois é pena que não o seja. Primeira impressão da cidade: fez-me lembrar Lisboa. Muita água, esplanadas, um velho eléctrico, .... A vida nocturna, sobretudo em Taksim é bastante boa e as lojas estavam abertas, felizmente, neste segundo EID. Claro que as mesquitas, os palácios, a cisterna... completam o quadro. Mas no centro está sem dúvida o Bósforo e uma travessia rápida entre a Europa e a Ásia, unidas numa só cidade... Se não existem fronteiras entre os continentes porque existem fronteiras entre os países?

domingo, 15 de novembro de 2009

Os papagaios de cabul

Ainda não tinha falado nisso, erro meu. Os papagaios enchem diariamente os céus da capital afegã, colocados no céu por miúdos e graúdos... Razão de tanta felicidade... uma prática que vem de longe mas que foi proibida durante o regime talibã... porque proibida??? Bem , o divertimento, a alegria, a música, tudo parecia perturbar a paz social ... os papagaios mas também as fotos e os retratos, a música, o cabelo comprido nos homens ou a ausência de barba, o dançar nos casamentos... tudo isso era proibido. Para além de um divertimento, os papagaios de Cabul são hoje um símbolo de libertação.

sábado, 7 de novembro de 2009

Brunch


Algo interessante em Cabul é a quantidade de estrangeiros que continuam a instalar-se, nomeadamente na área da restauração. O elevado número de militares, de funcionários de diferentes ONG´s e de diplomatas na cidade, implica uma procura crescente de produtos à qual o mercado afegão está longe de conseguir corresponder, dando lugar à iniciativa privada estrangeira. Ontem, sexta-feira e primeiro dia do fim-de-semana, tivemos um brunch numa pastelaria/padaria francesa. Mais do que francesa, alsaciana, visto a proprietária ser do alto-reno. Croissants fresquinhos, baguette au saucisson, croque-monsieur ou croque-madame no meio de Cabul parecem uma miragem, mas junta-se a uma oferta criada pelos estrangeiros na cidade que inclui restaurantes franceses, italianos, indianos, chineses, tailandeses, libaneses, espanhóis... alguém interessado em alargar essa oferta com um bacalhau com natas, uns pastéis de Belém e café a sério?

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Aproveita para ver como a vida também pode ser

"Aproveita para ver como a vida também pode ser" escreveu no facebook a minha amiga Joana. Penso que é disso que se trata quando sentimos a apreensão de saber que a próxima casa que irão atacar poderá ser a nossa, quando sentimos um tremor de terra que nos obriga a correr para o jardim, quando ouvimos um trovão e o associamos imediatamente a mais um atentado... mas é isso que pensamos sobretudo quando atravessamos a cidade e vemos as crianças a pedir dinheiro, a mulheres escondidas atrás das burcas, os mutilados da guerra, o desespero daqueles que querem sair do país por estarem cansados da situação e já não acreditarem em soluções, o ódio crescente por tudo o que é estrangeiro, a policia que não sabe bem o que faz por não ter sido preparada para isso, os aviões comandados à distância que enchem as nossas noites de ruído e que não nos deixam dormir. Há também, no entanto, os vendedores que tentam limpar a frente das lojas como se houvesse remédio a dar a tanto pó e muitas vezes lama e que, na falta de luz pública nas ruas, instalam candeeiros para iluminar a fruta e os legumes que acabaram de limpar, há também as lojas que colocam na montra imagens de modelos ocidentais (homens normalmente) e misturados com algumas palavras francesas tentam dar uma imagem de modernidade a quem passa. No meio de tudo fica a duvida se vale a pena continuar... penso que apesar de tudo vale a pena nem que seja "para ver como a vida também é".